TítuloO Homem que Escrevia Azulejos
Autor: Álvaro Laborinho Lúcio
Editora: Quetzal
Ano de publicação: 2016
Páginas: 238
 
Onde comprar: Wook

Confesso que não sei bem o que vos dizer acerca desta leitura, mas talvez deva começar por vos contar um pouco sobre a história.

O Homem que Escrevia Azulejos tem como personagens principais três homens e uma mulher. Norberto e Marcel são amigos de infância – cresceram juntos e são inseparáveis até na idade adulta. A maior parte do seu convívio dá-se num bar. João Francisco é um violinista e professor de música, e Otília é a sua neta. Os caminhos destes personagens acabam por se cruzar, culminando numa situação trágica. 

Um dos personagens, Norberto, diz-nos no prólogo que sempre gostou de azulejos, e que estes sempre foram omniscientes durante a sua vida. No entanto, não sabe pintar ou desenhar. Como tal, decide escrevê-los, contando a sua história através da poesia, e não da pintura. Isto fez-me lembrar de uns azulejos que vi em Alfama, por isso deixo aqui uma fotografia que tirei dos mesmos!

 

Temos as perspectivas não só destes quatro personagens, mas também de alguns dos personagens secundários, o que enriquece a narrativa. Só houve um pequeno problema: o autor troca de perspectiva de um parágrafo para o outro, e vocês só se apercebem quando estão a meio de uma frase e há ali qualquer coisa que não faz sentido. Isso tornou a leitura confusa, e obrigou-me a voltar atrás para perceber quem estava agora a narrar. Não é o fim do mundo, mas não é propriamente agradável ter de retroceder para reler passagens capítulo sim, capítulo não.

Houve um episódio em específico, o reencontro entre dois personagens muitos anos depois da última vez em que se viram, que me tocou bastante. Na altura até mencionei no Goodreads que me estavam a tocar em pontos fracos porque, realmente, é uma situação que me costuma fazer chorar – especialmente em filmes!

“Se eu não tivesse barriga, os dedos amarelos, os dentes velhos, tinha ido falar-te, dizer-te que já não digo palavrões. Tinha-te prometido. Muitas vezes. Eu sei. (…) Ficavas triste sempre que eu mandava foder o reaccionário do teu tio. Não por ser teu tio, mas pelo ‘foder’. (…) Eu ficava lixado, chamava-te burguesa, e não reparava que a tua tristeza se transformava em mágoa, depois em distância e, por fim, em renúncia e desistência. Voltaste-te agora. Estás mesmo de frente para mim. Só uma estante nos separa, mas tu não podes ver-me.” (pp. 37-38)

Quanto à escrita do autor, não tenho nada a apontar. Gostei bastante, achei que tinha a dose certa de simplicidade e escrita directa, e de escrita mais floreada. Há passagens muito bonitas que me ficaram na memória, por exemplo a descrição do quarto de um dos personagens ou do que alguém vê na rua a partir de uma janela.

“O dia acordara como ele. Viçoso, alegre, cheio de sol. No largo, defronte, as pessoas passavam, umas subiam, outras desciam, algumas paravam em breves encontros, todas numa coreografia espontânea, em consagração da Primavera que chegava.” (p. 62)

Tenho de mencionar algo que me fez comichão. Há aqui uma dinâmica muito estranha entre dois personagens. Trata-se de um tabu, uma coisa proibida que eu achei um bocado desnecessária. Aliás, todos os personagens deste livro não perdiam nada em procurar ajuda médica, porque todos eles têm problemas do foro psicológico. Mas não pensem que isso é algo que me fez deixar de gostar do livro – se há coisa que me atrai em livros são fucked up characters! Só aquela parte que mencionei é que achei um pouco tosca, mas adiante…

Temos também alguns momentos de humor – por vezes negro – que me fizeram soltar uma gargalhada ou outra, algo que eu aprecio sempre. Sou uma pessoa que adora rir, mesmo que não seja suposto rir daquele assunto.

“Foi num desses momentos que entreguei ao Valdemar a minha virgindade. Não correu mal. É certo que não senti borboletas na barriga. Não vi estrelas a luzir. E não gritei, o que foi bom. Não imaginava que um burocrata podia ser tão despachado.” (p. 88)

Este é um livro que envolve política, nomeadamente ideias políticas do séc. XX, algo que tende a fazer-me distanciar das histórias. Felizmente, não é demasiado proeminente ou relevante para o enredo, por isso consegui ignorar e focar-me apenas nos personagens.

“A cama escondia-se sob as estantes repletas de livros, que enchiam também, numa prateleira móvel, todo o chão entre as pés e a cabeceira.” (p. 58)

Ultimamente, tenho de admitir que este não é um livro para mim. Reconheço-lhe o valor intelectual e literário, mas eu sinto que não compreendi a obra, e isso deixa-me frustrada. Consegui gostar dos personagens, e até criar alguma empatia por eles. Consegui seguir e sentir uma parte do enredo, mas não percebi qual era o propósito da existência/presença de alguns dos personagens. Enfim, sinto-me uma ignorante porque parece que não atingi qualquer coisa que era suposto atingir.

Não vou dar-lhe uma pontuação mediana, e muito menos uma pontuação baixa, pois é um livro que merece avaliações altas. O autor é um homem culto, letrado, e isso é visível na história. A narrativa e o enredo são complexos e prendem o leitor. Só tenho pena de sentir que a minha leitura da obra está um pouco incompleta.

★★★★☆ 4/5 estrelas