Título: Ensina-me a Voar Sobre os Telhados
Autor: João Tordo
Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 2018

Páginas: 487
Género: Romance

Onde comprar (portes grátis): Wook

 

A História

Em Ensina-me a Voar Sobre os Telhados, existem duas linhas narrativas principais. A primeira, com início em 1917, conta-nos a história de Katsuro, um jovem japonês que, após cometer um erro, é severamente castigado e exilado pelo seu pai, que é o governador. Aquando do seu exílio, acaba por descobrir um segredo que foi passado de geração em geração na sua família. A segunda, já cem anos depois, segue um funcionário do Liceu Camões que, após o suicídio de um professor, dá início a reuniões acabam por funcionar quase como consultas de psicologia – inicialmente, apenas entre o staff do liceu, mas depois também alargadas a pessoas estranhas ao serviço. Numa dessas reuniões, aparece um desconhecido, Henrique, um homem japonês que fascina o nosso narrador pela sua atitude e comportamento fora do vulgar. Durante a leitura, vai sendo desvendado o passado destes dois personagens, bem como a história de Katsuro, desenrolada um século antes.

 

Opinião

É verdade, finalmente terminei esta leitura!! Quem segue o canal, sabe que estou há meses a ler este livro, mas acabei por pausar para ler em conjunto com a Dora. Devo começar por dizer que estou um pouco desiludida. Apesar de ter gostado, pensei que ia gostar mais – esperava algo diferente, mas não sei bem o quê…

“Conhecia bem aquele momento: o instante mágico em que a dor se ausenta de nós por um instante, se esconde numa trincheira, e o campo de guerra se ilumina de qualquer coisa que não é paz, mas é menos do que luta; que não é a felicidade, mas é menos do que tortura. As cinzas depois do fogo; o restolho a seguir à colheita.” (34)

Não é fácil descrever ou escrever sobre Ensina-me a Voar Sobre os Telhados, por isso deixo-vos com alguns prós e contras (a meu ver) desta leitura, um por cada estrela:

Prós

  1. Adorei a escrita do autor, lê-se bem e rapidamente. Eu sou comichosa com a ausência de travessões ou aspas nos diálogos, e o autor não faz uso desse tipo de pontuação, mas não tornou a leitura menos fluida. Existem inúmeras frases belíssimas, daquelas que alguém tatuaria.
  2. O humor, muitas vezes negro, fez-me soltar algumas gargalhadas. Tenho bastantes marcações de saídas engraçadas dos personagens.
  3. O tom do livro. É, sem sombra de dúvida, o livro mais triste e com o tom mais grave e melancólico que li até hoje. E, surpreendentemente, eu gostei disso. Foi uma lufada de ‘ar fresco’, deu para fugir ao que leio normalmente – também é preciso de vez em quando, não é?

“Durante o período em que trabalhei na livraria, apaixonei-me por livros. Descobri que, quando lia, nos tempos mortos, (…) não pensava em mim e nos meus infortúnios.” (107)

A história fica numa espécie de limbo, e corresponde à meia-estrela dos prós. Isto porque, apesar de ser uma história interessante, um conceito que eu apreciei, achei-a muito estranha. Penso que o meu maior problema foi a filosofia e o realismo mágico, que são omnipresentes. A religião também tem um papel assertivo na história, mas esse tema não me incomoda. Aliás, uma das minhas partes favoritas da história foi a mitologia japonesa que o autor incorporou na história. Cada vez que era utilizado um termo em japonês que eu não conhecesse, lá ia eu pesquisar. Acabei por aprender alguma coisa sobre criaturas da mitologia japonesa que, já agora, é fascinante.

“Deus não deve ser grande coisa ou, se for parecido comigo, é feio como a noite dos trovões.” (172)

Contras

  1. O livro é extraordinariamente longo, e não acontece assim tanta coisa. Até comentei com um amigo que o livro parecia infinito. Eu lia, lia, lia e parecia que nunca mais chegava ao fim! A leitura é bastante rápida porque a escrita do autor flui muito bem, mas a sensação que tive foi a de estar a ler devagar. São menos de 500 páginas, mas parecia que pouco avançava quando lia – esta sensação foi, provavelmente, acentuada pelo tal tom melancólico de que vos falava.

“E foi depois de uma noite em que, varrido por uma violenta insónia, enquanto assistia ao lento desfile da madrugada pela janela da sala, encostei o rosto à janela, o frio do vidro aquietando-me por um momento, fechei os olhos e perguntei a deus que merda era aquela, que monstro ia emergir agora das águas, que Tritão zangado ascendia do fundo dos mares.” (27)

Também no limbo, mas já na área dos contras, fica o final da história. Não vos vou contar, estejam descansados, mas digo-vos já que achei o fim bittersweet. É um final em aberto, que eu abomino. No entanto, até foi um bom remate para a história. Mas eu quero saber o que acontece!! Que frustração…

Em jeito de conclusão, eu acabei por gostar da leitura, e até li as últimas 300 páginas num ápice, mas senti que havia alguma coisa que me fazia não conectar com a história. O facto de a leitura ter ficado um pouco aquém das minhas expectativas não me fez, de todo, não querer explorar mais a obra do autor. Aliás, planeio ler o seu livro As Três Vidas brevemente. Tenho quase a certeza de que vou gostar mais – espero estar certa!

3.5 em 5 estrelas