Título: Uma Abelha na Chuva
Autor: Carlos de Oliveira
Editora: Livraria Sá da Costa
Ano de publicação: 1980
Páginas: 180

Onde comprar (portes grátis): Wook


Num dia destes, o meu pai trouxe um livro da biblioteca, daqueles que estão num caixote para dar a quem os quiser. Assim que vi o livro, reconheci o título e o autor, já que o Hugo tinha feito opinião não há muito tempo. Peguei nele nessa noite, e terminei-o no dia seguinte.

Uma Abelha na Chuva conta-nos a história de Álvaro e Maria dos Prazeres, casados por interesse. Casaram numa altura em que as famílias fidalgas se encontravam falidas e, como tal, casavam as suas filhas com comerciantes e lavradores. “Sangue por dinheiro”, como nos conta o autor. No início da narrativa, Álvaro dirige-se, a pé e enlameado, à redacção da Comarca de Corgos. Pretende publicar no jornal uma confissão dos seus pecados, para poder, de alguma forma, redimir-se. A partir daqui, desenvolve-se a história deste casal – com um enredo super dramático que me prendeu do início ao fim.

Como sabem, um dos meus objectivos para este ano era ler obras nacionais. Tenho conseguido fazê-lo, e tenho lido obras fantásticas – mas também já me desiludi com outras… Uma Abelha na Chuva insere-se na categoria de surpresas agradáveis, já que foi uma leitura bastante prazerosa. Com apenas 180 páginas (sendo que as edições mais recentes têm cerca de 130), Uma Abelha na Chuva é uma leitura rápida e compulsiva. O dramatismo de todos os acontecimentos é digno de uma telenovela mexicana, e é também algo que prende o leitor e não o larga até que a leitura esteja terminada.

Domingo, dia de missa, consultório e chinquilho nas tascas, dia de levar a garotada à malga do barbeiro: enfia-se a malga pela cabeça dos rapazes e o Albano faz a tosquia circular ao longo do rebordo; vem depois o disfarce, operação de pente e tesourada larga, que só não acaba de tornar o cachopo num verdadeiro urso, porque a cabeça dos ursos não é às escadinhas, como dizia depreciativamente o Rocha, que trazia um filho, em Corgos, a aprender o ofício na Barbearia Perfeição. (p. 176)

O livro tem um elenco reduzido, talvez uns sete ou oito personagens que surgem frequentemente, mas todos muito distintos. Há personagens para todos os gostos, e partilho já convosco a minha predilecta: D.ª Violante. Esta senhora fez-me rir várias vezes com os seus inúmeros provérbios, o que cortou um pouco a tristeza que está patente durante a leitura.

A escrita do autor diz-nos logo que este escreve poesia. É muito elaborada, e até ritmada, mas isso não torna, de todo, difícil a leitura de Uma Abelha na Chuva. Confesso que fiquei rendida, e gostaria de explorar mais a obra do autor.

Por hábito, lançou os olhos às colmeias, que lhe ficavam mesmo em frente, dez ou doze metros, se tanto, e viu uma abelha voar da Cidade Verde. Baptizava as colmeias conforme a cor de que as pintara, Cidade Verde, Cidade Azul, Cidade Roxa. A abelha foi apanhada pela chuva: vergastadas, impulsos, fios do aguaceiro a enredá-la, golpes de vento a ferirem-lhe o voo. Deu com as asas em terra e uma bátega mais forte espezinhou-a. Arrastou-se no saibro, debateu-se ainda, mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas. (pp. 179-80)

É também uma obra interessante por representar a sociedade portuguesa de há umas décadas atrás. Retrata o quotidiano dos portugueses, bem como a situação política e económica da época, tanto na metrópole, como nas então colónias portuguesas. Isto implica, como devem calcular, racismo e sexismo, tendo em conta a época retratada e o colonialismo.

Não leias esta passagem à cunhada, mas fica sabendo que uma preta, bem espremida, deita mais sumo do que uma laranja. A questão é enchê-las dumas aguardentes lêvedas que por aqui há e eu quero ver onde é que está a branca que dê um rendimento destes. (p. 65)

Como foi anteriormente mencionado, a tristeza é algo proeminente em Uma Abelha na Chuva. A obra fala-nos sobre pessoas que vivem infelizes. Sobre a morte, a guerra e o colonialismo. Sobre amores forçados e amores impossíveis, proibidos. No entanto, o autor consegue encontrar um equilíbrio entre o tom de desgraça e o humor ou situações mais corriqueiras, tornando esta uma leitura agradável.

Em jeito de conclusão, Uma Abelha na Chuva surpreendeu-me pela positiva: foi uma leitura rapidíssima e cativante, que me fez devorar compulsivamente as suas páginas – e me arrebatou sem que eu o esperasse.

5/5 estrelas